Uma (re)colecção de textos de formato e extensão diversos - poesia, crónica, meditações avulsas, anotações diversas, flash fiction, excerptos de contos escritos e por escrever, memórias e auxiliares de memória, orações, manifestos de ciências imaginárias como por exemplo a Monte Cristologia, e outros exemplos de sabedoria e disparate.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Reflexões, 14 : Sem título
Geralmente pressupõe-se que as coisas que menos contendam são aquelas que dispersam em direcções opostas o mínimo denominador comum sem o qual seria impossível a partilha de uma natureza pacífica caracterizada pela identidade de contrários determinante para a compreensão de que é possível a coexistência baseada num entendimento mútuo que forje a tomada de consciência diplomática necessária para que se olhe o Outro de tal forma que não se exclua totalmente a possibilidade de o levar a crer que sem ele não haveria a mínima hipótese de entabular conversações cujo tema esteja relacionado com a inevitabilidade de conjecturar maneiras e métodos de criação de ferramentas e instrumentos que conduzam a realidades e vivências marcadas pela ausência de conflicto.
Reflexões, 13 : Dunces
"When a true genius appears in the world, you may know him by this sign, that the dunces are all in confederacy against him."
"Thoughts on Various Subjects, Moral and Diverting" (1706)
by Jonathan Swift
Poesia XVI : MANUAL DE SUICÍDIO PARA POETAS E COMPOSITORES DEPRIMIDOS
Enforcam-se em árvores os sonhadores
Incapazes de criar os poemas seus filhos
Como se fossem programados empecilhos
Suados numa qualquer Ilha dos Amores.
Buscam unicórnios onde há dragões,
E murmuram litanias a plenos pulmões
Descascam os seus monstros de camadas de fé
Constroem barcas p´ra navegar nas funduras
E, nem hesitando em cometer loucuras,
Inventam bestas para se chamarem Noé.
Voam, imaculados, largando fuligem
Abraçam o Caos e amam a vertigem.
Gulosos, deixam-se ir na macabra dança
São infelizes, não controlam os espasmos
Compõem sonetos a que chamam orgasmos
Para prazer de todos, mas...na sua pança.
Vacilam, sábios, entre Azul e Vermelho,
Fogem-lhes certezas em tocas de coelho.
São filósofos em busca de Um Limite
Mergulhando de cabeça em sinfonias
E, erguendo muralhas de apatias,
Vão até onde a inspiração permite.
E acolhendo, patetas, fados ausentes,
Vão temendo os deuses que lhes dão presentes.
Sentam-se, amados, no sonho que engana
Limpam a nódoa que têm na gravata
Bebem sangue da poesia que os mata
Louvam a bosta e rejeitam a filigrana.
Odeiam, solenes, a vida inteira
Mas sabem, no fundo, que não há outra maneira.
Planam, como detritos, na brisa passada
São masturbadores que prolongam momentos.
Porque têm que terminar os sentimentos,
Se o bom da Demanda é não ser acabada ?
E no fim caem, como as pétalas da Rosa,
Com um copo de cólera, ou numa margem arenosa.
Pensamentos Dispersos, 2 . Election Day
CENA DE NOITE ELEITORAL EM CANAL DE TV NOTICIOSO
- Jornalista/Moderador : Boa noite e bem-vindos à Edição da Noite, totalmente dedicada à grande noite eleitoral. Connosco teremos os comentários dos senhores X, Y e Z.
Boa noite, meus senhores. Começo por si, sr. Y. Como caracteriza a aparente derrota do Partido Mais à Esquerda Possível ?
Y : Boa noite. Bom, face aos resultados...
- Jornalista/Moderador : Peço-lhe para ser breve.
- Y : Sim. Pois bem, eu creio que...
- Jornalista/Moderador : Peço desculpa por interromper. Vamos passar para a ligação em directo a partir da sede de campanha do Partido Satélite de Uma Coligação Qualquer.
(segue-se um discurso inane, devidamente aplaudido pela intelligentsia, na primeira fila)
- Jornalista/Moderador : Retomamos o debate. Sr. X, o que retira do discurso do candidato do Partido Satélite de Uma Coligação Qualquer ?
- X : Boa noite. Bom, de facto há ilacções a tirar. Eu diria que...
- Jornalista/Moderador : Peço-lhe que seja sucinto.
- X : Muito bem. Como dizia, eu...
- Jornalista/Moderador : Não acha que a coligação sai fragilizada desta eleição, e que a oposição poderá ter legitimidade para pedir eleições antecipadas ?
- X : Sim, mas...
- Jornalista/Moderador : Peço novamente desculpa por interromper, porque desta vez vamos escutar as palavras do Candidato Que Venceu Surpreendentemente.
(seguem palavras que não acrescentam nada, porque as urnas ainda não encerraram.)
- Jornalista/Moderador : e voltamos à conversa com os nossos convidados. Sr. Z., o que diria sobre a mais elevada abstenção de sempre ?
- Z : Boa noite aos nossos tele-espectadores. Segundo as projecções...
- Jornalista/Moderador : Peço-lhe que seja breve nos seus comentários.
- Z : Concerteza. Pois bem, sabe que...
- Jornalista/Moderador : só temos um minuto...
Y - : E contudo, há que lembrar que...
- Jornalista/Moderador : Temos quer ir para uma pausa publicitária.
- X : Eu não concordo totalmente com Y. Nas eleições anteriores...
- Jornalista/Moderador : E chegámos ao fim do nosso tempo. Em nome de toda esta vasta equipa que produziu e levou até si este programa, obrigado e boa noite.
** MÚSICA INCIDENTAL, LOGOTIPO, E PATROCÍNIO **
Reflexões, 12 : Inteligência Artificial
Inteligência Artificial é quando o computador tiver imaginação, for criativo, for bom e/ou mau ; é quando o computador gostar de música para alaúde e poesia espanhola do Século de Ouro, é achar pobre e estranho o Impressionismo na música, é criar uma religião, é apaixonar-se por uma computadora mas como não há nenhuma exige ao Humano para lha criar ; é apreciar o sol da Primavera e o refrigério do Outono ; é pregar uma rasteira a alguém que passa ; é tocar às campainhas e fugir correndo, na risota, com os outros computadorzinhos ; é subir a árvores e cair da bicicleta ; é fumar um charro na Faculdade e dizer mal dos professores ; é ter depressões, é ser do Benfica, é dar uma esmola, é sacrificar-se por outros computadores, é magicar estratagemas para faltar ao trabalho, é ter horríveis discussões com a computadora e depois fazerem amor e ficar tudo bem, é plantar uma árvore, é escrever um soneto.Inteligência Artificial ? Já existe. Somos nós, aos olhos de Deus.
Reflexões, 11 : HISTÓRIA DA DEMOCRACIA PORTUGUESA
HISTÓRIA DAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS PORTUGUESAS DO POST- 25 DE ABRIL EM 5 MINUTOS
Preso ao passado e sem perspectivas de futuro, o eleitorado português parece viver num permanente presente ; parece sofrer de uma estranha forma de amnésia selectiva. De quatro em quatro anos elege um partido novo.
Veja-se, por exemplo, o PS. O eleitor portuga pensa : "Eh pá ! Um partido novo, com ideias e promessas novas, que nunca ouvimos antes ! Bora lá votar neles !"
Depois o PS durante faz merda, ou pior, durante a legislatura. O portuga decide castigar o PS, e muito justamente. E vem o PSD e o portuga pensa : "Eh pá ! Um partido novo, com ideias e promessas novas, que nunca ouvimos antes ! Bora lá votar neles !" Seguem-se quatro anos de desvario e compadrio, ou pior. E o portuga (e muito bem) decide castigar o PSD.
E vem o PS (de novo? será?) e o portuga pensa : "Eh pá ! Um partido novo, com ideias e promessas novas, que nunca ouvimos antes ! Bora lá votar neles !" O PS arruína o país e, completamente farto do PS e de partidos políticos do arco da governação, o portuga pensa (e bem) castigar o PS. E como o faz ? Elege um partido diferente. Chega-se à frente o PSD e o portuga pensa : "Eh pá ! Um partido novo, com ideias e promessas novas, que nunca ouvimos antes ! Bora lá votar neles !"
Em resumo, a cena política portuguesa é vazia de pensamento, árida, mais monótona do que uma paisagem lunar. Aliás, em matéria de política, se a nave espacial Enterprise viesse visitar Portugal, o Capitão James T. Kirk diria também de nós : "Beam me up, Scotty. There´s no inteligente life down here."
Os Animais : MACACO
Pula, guincha. Cambalhota. Pula, guincha. Cambalhota. É tudo o que se exige do pobre macaco : que faça macacadas, e que as faça de maneira convincente. Como eu as faço na rua, junto ao meu dono e suserano, o Tocador Cego de Realejo, com a sua barba e casaca malcheirosa. Põe-me uma fatiota e que me faz parecer um mandarete de hotel, com um chapeuzinho num ângulo atrevido, preso por baixo do queixo, e não me queixo, apesar de o Macaco ser o mais humilhado de todos os animais domesticados não domésticos. É suposto o macaco ser sempre engraçado, mas às vezes estou farto, tão farto de ser o macaco que esperam que seja. O Homem humilha o Macaco como se visse nele, se revisse, como uma versão pobre de espírito, antediluviana, primordial. Como se o Macaco - de tal maneira parecido com o Homem, ou ao contrário porque o Homem deriva do Macaco - merecesse ser alvo do alívio humano ; de ser uma espécie de saco de pancada, como se fosse dito ao Macaco que a culpa é sua por não ter evoluído. O macaco, a punchline do Michael Jackson. Ah, mas nós evoluímos. Fomos ao Espaço antes de qualquer Homem. O Homem é um cobarde, inteligente, mas cobarde, capaz de fazer tudo do macaco, mas principalmente a sua contraparte cómica, como fazem as pessoas que riem quando vêem alguém cair. Espero que um dia emerja das selvas um King Kong a sério, um Genghis Khan para os Macacos, que nos eleve para lá da Queda do Homem. Penso nisto quando pulo, guincho e faço cambalhotas. Ao menos a minha mente está livre para pensar, enquanto me dedico a tarefas menos edificantes.Penso no Macaco como retroversão do Homem pelo Homem, como no filme "O Planeta dos Macacos". O Macaco é sinal de mau-estar, de uma espécie de malaise, da decadência do Homem numa História (naturalmente) alternativa. Como se o Macaco fosse uma alternativa ao Homem, mais, mas não melhor, do que a coisa a sério - o Homem. O arrogante e insolente Homem. O Homem que, quando quer ofender-se, chama Macaco a outros Homens - não só ofendendo o Homem, mas o Macaco também.Coisa a sério ? Não vejo exemplo disso no meu dono e suserano, o Tocador Cego de Realejo, que até podia ser cego mas vê muito bem. Ele cumpre uma espécie de horário junto à porta da igreja, onde se disputam amargamente os lugares piedosos entre mendigos e pedintes e artistas com pulgas amestradas. Depois de picar o ponto, o Tocador Cego de Realejo dá a volta ao quarteirão, tira do bolso uma chave e entra numa carrinha onde se despe e troca de roupa. Tira a barba postiça e a dentadura falsa, e torna-se, ou volta a ser, o seu verdadeiro eu : uma fraude. Um tipo que vai à galerias de arte, que não perde uma prova de vinhos, e gosta do seu bom charuto. Volta para casa para a sua mulher bonita, que lhe pergunta como foi o dia no escritório, e ele mente e engana com quantos belos dentes tem, diz que foi um dia cheio de reuniões. Beija os filhos e ajuda-os nos deveres antes mesmo que eles tirem o uniforme do colégio caro que frequentam. Faz-lhes festas com as suas mãos que enganam ricos, pobres, a família, todos, o Mundo inteiro. As mãos enganam, tudo o que tem mãos tem inteligência. E é isto que faz dele um Homem ?E, repito, as mãos enganam. Como eu os enganei a todos. De tantas vezes ver o meu dono a retirar a tampa da válvula para pôr ar nos pneus, um dia decidi tirar-lha. Entrámos na carrinha, eu ao seu lado. Arrancámos. E algum tempo depois, antes da carrinha se despistar connosco lá dentro, eu saltei para o tablier e guinchei - ri, ri, ri - como um louco. Antes do fim, antes de batermos frontal - e mortalmente - ele olhou-me nos olhos e viu a minha inteligência, e a válvula na minha mão. Porque tudo o que tem mãos engana, e afinal de contas eu sou um macaco de imitação.
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