quarta-feira, 11 de junho de 2014

Reflexões, 10 : Monarquia

A propósito da abdicação ao trono do Rei Juan Carlos, e do recorrente debate República vs. Monarquia, só tenho a dizer isto : prefiro mais ter como Chefe de Estado alguém que tenha nascido num palácio, do que algum pé-rapado que, subindo na hierarquia de um partido político, queira viver num.

Reflexões, 9 : Poesia

Os poetas cegos têm bengalas métricas ?

Os Animais : TIGRE

"ASSASSINO ! ASSASSINO !", sussuram-me nos ouvidos as vozes dos decapitados, cujas cabeças uso para jogar cricket às Sextas-feiras à tarde. Vejo-os, ou julgo que vejo, à noite, na selva. "TIGRE ! TIGRE !", ecoam vozes desta vez bem reais, de pessoas bem reais, que fazem soar tambores à noite. O que me enfurece e enlouquece mesmo são as trombetas. E as flautas, como se fossem para um baile, para uma festa. São patéticos. Como se eu não sentisse a milhas o seu cheiro a açafrão e cardamomo...Felizmente, a luz do luar passando pela densa folhagem lança sombras que se confundem com as minhas listras e passo despercebido ; estou perto e estou longe ; agora vêem-me, agora não. As lendas nascem na noite, na água escura do rio, quando dormem os Homens, e dorme o mundo - mas não os deuses. Por isso não compreendo porque insistem em assustar e atemorizar o temível, o deus Tigre. Aliás, acordei hoje de manhã e senti-me bastante divino. Espreguicei-me e bocejei como só um deus o pode fazer. Levantei-me cedo e contemplei o meu reino a partir da encosta da montanha e pensei, por Durga !, tudo isto é meu. Então porque insistem em me irritar, se sabem do que sou capaz ? Não é melhor ser temido do que amado ? E lá vêm eles. A aldeia em peso ? Não...ficaram lá as mulheres e as crianças, e alguns velhos desdentados que tocam o sitar e cantam porque quem canta o seu mal espanta, e é precisamente por isso que para lá vou, para ensinar uma lição ao Homem, porque isto está tornar-se insustentável. Chego à aldeia e começo a lançar o terror, enquanto medito. Como se atrevem a lançar sobre mim expedições punitivas, a mim, Sua Eminência, o Imperador de Toda a Ásia, "Meu Senhor Tigre" - é como me chamam ? Como se atrevem, os destronados marajás da Índia, que desistiram da luta pela soberania e agora me caçam confortavelmente sentados num Rolls-Royce ? É preciso ter lata...eles que agora são Ingleses e mandam os filhos para Oxford, servos dos Ingleses mais Ingleses que os próprios Ingleses que no entanto os desprezam ! São peões em Grandes Jogos, lacaios dos Kim, e dos "Lords Jim" que se mancharam na ignomínia da cobardia e procuram redenção na selva, no domínio que é meu desde d´o tempo em que nós, animais, falávamos ! Ah, mas aí vêm ! Olho-os, cheio de raiva, através da cicatriz que me atravessa o rosto, e o Nobre Tigre tem que fazer uma retirada estratégica ! *** Dormi 7 dias e vagueei nove noites, até chegar a orla de uma floresta de bambu onde o silêncio era o rei. Não gostei ; só ouvia uma suave brisa passando pelos tufos de pelo que tenho nas orelhas. Aspirei o ar, farejei em todas as direcções, e só conseguia cheirar frescura e uma estranha paz. Entrei. Sob uma árvore, sentado numa pedra coberta por uma esteira de palma entretecida, vi um homem pequeno e franzino. De tão frágil, com uma garra apenas eu o podia cortar ao meio, se quisesse. E o que me confunde é que não quero. Ele está quieto. Totalmente imóvel, quase nem respira, duvido que se tenha apercebido de mim. Aproximo-me. Ele tem vestido apenas um pano branco, enrolado à volta da cintura e das pernas cruzadas, e as suas mãos repousam sobre os joelhos. Ele abre os olhos e pega numa flauta. Solto um rugido, sem grande vontade, mais por hábito do que por convicção ; e pressinto nele algo de diferente, desconhecido para mim. Para MIM, que sou divino. Como é que é possível. Sento-me. Escuto as suas palavras, que me soam ao cantar dos pássaros dos bosques ; ao som da água escorrendo pelas cascatas. Deito-me. Ele levanta-se com toda a calma do mundo, vem até mim. Estou paralisado, não sei o que se passa comigo. Permito que ele se sente no meu cachaço. Levanto-me. A partir desse momento compreendi que éramos Irmãos. E desaparecemos na floresta. Onde todos somos mortais, Deuses & Homens. O Homem-Tigre, e o Tigre-Homem.

Os Animais : PINGUIM

PINGUIM Toda a gente acha que a maneira de andar dos pinguim é muito engraçada, até se verem na contingência de andar como eles, na terra deles. Aí o caso muda de figura, para pior. O Pinguim personifica a adaptação ao gelo mais do que qualquer outro animal, do ponto de vista do Homem ; talvez por sermos aves que não voam ; andamos erectos, de costas bem erguidas, e parece que usamos uma casaca preta e coletes brancos. Como outros, outrora, que depois vi num caixão fluctuante. Imagino-os nos salões das senhoras da sociedade culta, aristocrática e da alta burguesia. Ponho-me no lugar deles, em reuniões da Royal Geographical Society, pobres e ridículos aventureiros, em busca de patronos e patrocínios : capitães do Exército sem grandes perspectivas, diletantes filhos de capitães de indústrias cavernosas dos miseráveis de 16 anos ou menos que trabalham por dia 16 horas ou mais, e filhos cadetes de marqueses, de papo cheio de coragem e bolsos cheios de nada, despedindo-se da filha do baronete no beberete após a partida de cricket, ela e ele vestidos de branco, branco de juventude e de ingenuidade e inocência, brancos de neve, brancos como o colete do Pinguim. Vimo-los chegar ao reino do Gelo e da Neve, ufanos de esperança e da glória de deixar a bandeira no Pólo Sul, numa corrida insana, bem humana, demasiado bem carregados e mal preparados, nem sequer imaginando com toda a sua ciência e inteligência aquilo que o Pinguim sabe por experiência. Olhamo-os com curiosidade uns, e indiferença outros ; isto de se ser pinguim não é fácil, pescamos sardinhas nas costas de terras a que foram dados nomes de rainhas ainda vivas para que sejam marcadas coordenadas e posições geopolíticas de prestígios victorianos de cruzadores blindados alimentados a vapor por pazadas de carvão e homens de Newcastle, dos tempos em que não havia assim tantas greves de mineiros porque se calhar não havia assim tantos direitos. Nós, os Pinguins, pescamos e quando estamos debaixo d´água escutamos os ínfimos ruídos e “cracks” da madeira a estalar lentamente pelo abraço frio do gelo, que comprime e esmaga o navio dos intrépidos exploradores, do capitão escocês de barba ruiva e cachimbo apertado entre os dentes que daqui a dois meses vão matraquear incontrolavelmente enquanto amaldiçoam a Terra do Pinguim, onde se encontram deslocados como peixes fora d´água. E eu, o Pinguim – chocando o ovo ou cuidando das nossas crias, tarefa partilhada por machos e fêmeas, nesse aspecto somos mais humanos do que os próprios Homens - abano a cabeça e antevejo a desgraça. Os poucos que irão sobreviver regressarão como farrapos humanos, entre eles o terceiro filho do marquês e o detestável despenseiro do navio, que desviava provisões ; foi descoberto, mas tudo se calou e esqueceu no inferno gelado quando ele carregou às costas o filho do marquês, naquela característica humana que maravilhou o pinguim, a de os Homens deixarem cair barreiras e se unirem na desgraça, nas dificuldades. Nada que nós, os Pinguins, não saibamos já, quando nos juntamos corpo a corpo para darmos uns aos outros calor e vida. Talvez um dia o mundo dos Homens seja melhor, quando eles forem mais parecidos com Pinguins.

Os Animais : MORCEGO

MORCEGO Imaginem um mundo ao contrário, em que em vez de haver gravidade centrífuga há antes um chão oposto ao nosso, de pernas para o ar, e as pessoas são empurradas para ele e estão de cabeça para baixo em relação a nós, de pés bem assentes nesse chão que para nós se torna o tecto. É esse o mundo do Morcego quando dorme, e ninguém pode negar que quando estamos a dormir nos encontramos num mundo diferente, alternativo. O Morcego, criatura da noite extraordinaire, compreende estas coisas melhor que ninguém. Aliás, é nos Antípodas que vivem os meus parentes Pteropus, “a raposa-voadora”, o Godzilla dos morcegos. Era este o tema da conversa em família e estória de encantar que eu, o Morcego, contava ao meu filhote lá na caverna que é a nossa residência. Toda a gente sabe que é nos sítios escuros que têm lugar as conversas mais interessantes. “Papá, e os morcegos vampiros?” perguntou o meu filhote, certamente pensando no mito que associa algo de demoníaco aos nossos primos que ingerem sangue, lá nas selvas da América do Sul. “Bem, meu rapaz”, respondi eu enquanto me envolvia na capa negra que são as nossas asas, “é tudo uma construção cultural mágico-religiosa fundamentada na crendice e na ignorância humanas, de que o sangue é a alma da carne e que ao chupares sangue além de extraíres um pouco de vida material também estás a sugar algo de algo de espiritual. Ora, se assim fosse, de cada vez que alguém dá sangue estaria a transmitir ao receptor algo de imaterial, muito seu, alguma vivência ou experiência ou sentimento único e irrepetível, e nenhum morcego no seu juízo perfeito jamais acreditaria que num ser vivo há algo mais do que a combinação e soma dos elementos químicos que o compõem. “É uma lenda antiga, universal, que apesar disso não deixou de ser alimentada com a transferência cultural, aliás transfusão, entre povos de geografias e contextos diferentes que se interpenetram e dão dentadas uns aos outros como se fossem animais. Recordo-me daquele romance de aventuras de Emilio Salgari que refere um episódio de vampirismo – animal, claro. A acção decorre nas selvas do que é agora a Venezuela (onde Salgari nunca esteve porque de facto nunca saiu de Itália) e um dos mauzões – inimigos do corsário que usava uma capa negra - é encontrado com dois furos no corpo. Não me lembro onde, acho que na cabeça, porque essa coisa de no mundo dos Humanos os vampiros morderem no pescoço é algo de um erotismo que não existe no mundo animal ; se mordem no pescoço, ou na garganta, os animais fazem-no porque é prático e cómodo, e porque lá passa a artéria carótida que leva oxigénio ao cérebro. Ao contrário dos Humanos, os Animais matam sem crueldade, porque não conhecem o Bem e o Mal, e porque o fazem segundo a lei da parcimónia de energia e força, por poupança de esforços. As estória também envolve índios antropófagos, o que é um horror e tabu para muitos mas para certas minorias étnicas não. É tudo uma questão de relativismo cultural. Foi um grande choque para os Europeus da época da narrativa, que preferiam entregar-se a tarefas muito mais sensatas como por exemplo demandas por cidades de ouro supostamente perdidas nas selva, e fontes de eterna juventude, nunca lhes ocorrendo que se as houvesse já os índios as teriam descoberto há muito. O facto simples e evidente de haver índios idosos passou-lhes completamente ao lado. Mas enfim, para eles era uma oportunidade para brilhar e regressar às suas cortes carregados de coisas que brilhavam, a fim de serem utilizadas como moeda e como ornamento das igrejas do seu Homem-Deus que por acaso até privilegiava a pobreza. E assim iam, rio acima, crivados de flechas envenenadas, carregados com canhões e balas de canhão que os atrasavam como se lhes estivessem acorrentadas aos tornozelos, e morrendo de sede e calor sob elmos e couraças que os tornavam tartarugas de aço ; e acompanhavam-nos outros homens brancos vestidos de negro cuja tarefa era pegar em homens de pele mais escura e torna-los mais brancos através da sua Fé, que até pode mover montanhas mas que não cura cegos que não querem ver, do tipo dos que não querem colocar-se na pele do Outro e ver as coisas com os seus olhos. E muitos falhavam clamorosamente, como falham os que perseguem sonhos inatingíveis. Houve de tudo, até quem mandasse construir uma ópera no meio da selva, vê lá bem a fantasia, paga com sangue de árvores e com o suor de homens, senhores e escravos numa bizarra dialética, num estranho e trágico bailado de vaidades e vãs glórias… “Papá, falar de Homens é aborrecido, e mete-me nojo…” “Tens razão, filho. Vamos mas é esvoaçar para fora da caverna em direcção à luz, e vamos petiscar uns suculentos insectos.”

POESIA XV : EMPREGO DE SONHO

EMPREGO DE SONHO Hoje acordei por distracção. Esquecendo todos os factos, Descurando todos os pactos, Entrei no dia em colisão. Acontece-me amiúde : Olvido o que é e não é, Queimo-me na máquina do café, E perco o trem da plenitude. Passando guias de desordem A clientes que não existem, Peço aos deuses que me acordem ; E volto na hora de ponta, P´ros pesadelos que persistem Na minha casa de faz-de-conta."

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Poesia XIV : "Pulsar"

PULSAR Foi na glória da clausura De um casulo doce, quente Que nós nos vimos, frente-a-frente E viajámos até à loucura. E, em gestos não calculados, Dos que não deixam qualquer traço Fomos aos confins do Espaço D´onde emergimos, cansados, Do turbilhão de estrelas, Explosivo, bruto e crú Onde, princesa, brilhavas tu Radiando entre as mais belas. Perco a minha respiração Quando te vejo, langorosa Na tua veste vaporosa, A desarmar-me o coração ; E, se na guerra e no amor É verdade que tudo é justo, Com paixão pagarei o custo Morrendo na Arena do Amor Que é ter-te. Nesta vida breve, Cheia, vazia, de Vida e de Morte Somos pois deixados à sorte Nas baladas que o Destino escreve. Deixas-me de peito aberto ? Então entra e fascina-me Eleva-me ou arruína-me... ...pois o que está infinitamente longe também pode estar infinitamente perto!