Uma (re)colecção de textos de formato e extensão diversos - poesia, crónica, meditações avulsas, anotações diversas, flash fiction, excerptos de contos escritos e por escrever, memórias e auxiliares de memória, orações, manifestos de ciências imaginárias como por exemplo a Monte Cristologia, e outros exemplos de sabedoria e disparate.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Reflexões, 6 - Sentidos de liberdade
Um dia destes, conheci mais um cromo da nossa amada capital, que é rica neles.
No autocarro a caminho da Biblioteca Municipal dos Olivais, havia um homem que não só não se calava como falava àcerca de tudo e mais alguma coisa, ininterruptamente. O seu discurso tão depressa passava da palavra de ordem como para a vulgar profanidade. Saltava da crítica social para a observação profunda. Fazia retratos à la minute das pessoas que passavam. Citava. Reclamava direitos comuns a todos, e invectivava as potestades. À saída decidi conhecê-lo melhor.
Fiquei a saber que grava o que diz num gravador de jornalista, e colige tudo em ficheiros de audio. Artista da palavra, da spoken word, este auto-proclamado profeta de rua que mete conversa com toda a gente pareceu-me simples e feliz como um passarinho, sem quaisquer constrangimentos. Voava pelas palavras. Livre.
Reflexões, 5 - Diário de um menino doente
E assim me sento a escrever. Tudo e nada. Por razão nenhuma. Mas também por consolo e por amor a esta vida...um amor calmo e sereno de sofá e chá quente e roupão e chinelos, com o gato ao colo.
Sei que não sou particularmente esperto. Nem que escrevo com profundidade. Mas não faz mal. Estas listas de textos e palavras destinam-se mais a mim do que a mais alguém, e recreio-me nelas. Sei que são o resultado de uma visão da vida muito simples e íntima e pessoal, são como um pátio em que o Sol só brilha para mim, são como o diário de um menino doente (o que nunca deixei de ser). E por isso estou-me nas tintas para o facto de que ninguém as lê, pelo contrário, são flores que planto e rego neste jardim secreto.
Aprendi a amar o silêncio...a ausência de vozes que não sejam as minhas. Não consigo viver longe deste mundo ; melhor, desta comunidade fechada que surgiu em mim deste muito pequeno...
Ao longo da minha vida habituei-me ver-me encerrado no meu mundo. Lembro-me de tantas vezes que me refugiava nos meus pensamentos e fantasias, contra um mundo e contra uma vida que repudiava e odiava. Sentia-me e sinto-me violado por nem sempre conseguir combater pessoas e situações que me ofendem ; detesto a brutalidade e a vulgaridade ; detesto profundamente a invasão do meu tempo e dos meus pensamentos, de ver que o meu mundo interior é incompatível com o rumo das coisas.
Criei bonecos e brinquedos que só eu via, que podiam saltar e correr como eu às vezes não podia, que corrigiam injustiças...
O que é crescer ? Cresci como adulto, cresci pela dor, pelo sofrimento físico e por me ver incompreendido, nunca fui alimentado senão por mim próprio na minha alma. Cresci como espírito e cresci em sabedoria, cresci em maturidade...passei por muitas coisas que me edificaram, experiências de vida ou de morte, amor do Mar...toxicodependência e álcool ; amor apaixonado por uma mulher ; amor da minha família que adoro...cresci emocionalmente numa grande parte dorida da minha vida, numa viagem de descoberta sem fim ; tenho poucas mas boas amizades direccionadas na minha vivência da Fé ; tenho Deus e Jesus Cristo, meu Salvador, Comandante, Rei e amigo...mas sem nunca abdicar da minha vida interna de sonhos, de amor e fascínio pelo mistério e pela fantasia. Se quero incorporar na minha vida o crescimento fundacional que lhe permite ter uma infraestructura, por outro lado não, não quero crescer.
Quero manter e nutrir o meu mundo interior ; quero brincar e ser criança ; quero que a minha casa seja a minha casa e o meu oratório, sim, mas que seja o meu quarto de brinquedos. Que seja o meu refúgio onde me possa ocultar dos brutos e dos bullies e brincar, ser quem sou. Quero que seja a minha biblioteca e arca de tesouros, onde possa mergulhar e viver uma aventura que dure um fim-de-semana inteiro. Desejo realizar pequenas encenações e psicodramas em que me perca no personagem ; vou inventar caças ao tesouro, ao mistério, procurar um manuscrito perdido ; embrenhar-me na re-leitura dos meus diários ; ficar dentro de mim, no meu mundo próprio em que tudo é quente e confortável.
No meu mundo, em que co-existem três pessoas (eu, a Laura Borges e o Raimundo Vilanova Cabral), as coisas acontecem num tempo mágico sem tempo. Adoro estar só e em silêncio, mas não estou só nem em silêncio. Tenho os meus amigos ; o Raimundo, na sua proverbial impaciência e sobranceria, busca interesses elevados e a aristocrática companhia dos clássicos da literatura, e da poesia espanhola do Siglo de Oro, e da pintura e música barrocas ; Laura, por seu turno, gosta andar por casa vestida com roupas simples e confortáveis, estar na cozinha de roda dos seus chás, e ler estórias de mistério e clássicos de literatura escapista.
O meu mundo também tem espaço para aventuras e viagens mais exóticas e, porque não dizer, eróticas. Não é invulgar haver festas em que as pessoas celebram a amizade e o amor ; come-se, bebe-se, ouve-se música de não-pensar, e dança-se...e às vezes solta-se um dragão possante que possui os dançantes ; desde a minha dança guerreira até à dança bacante da Laura, atinge-se um estado de furor e euforia em que se libertam poderosas energias criadoras...e depois dessa tempestade vem um período de acalmia e de amor tranquilo, como um rio que ruge e depois adormece nos seus próprios movimentos.
Escrevo porque escrevo, escrevo para mim, para meditar e me comprazer...escrevo como um acto de amor auto-erótico, em que me consolo num amor forçado à solidão. A partir de uma cela de paredes invisíveis, por enquanto, mas de materiais finíssimos num futuro próximo e glorioso.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Poesia XI : O Estandarte
Vela finíssima, ao vento
Testemunho te dou de amor
Meu estandarte e penhor,
Te ofereço o meu alento
Respiro o teu perfume
Doce e seco, de fruto
Outro amor eu não disputo
Só por ti sinto queixume
O teu calor, pelas manhãs
A carícia do teu abraço
Envolvem o meu espaço
De esperanças que não são vãs
Oh estandarte, és bandeira
Olha, chega um galeão
Viagem ao toque da mão
Da bailarina e feiticeira
Marchemos, Lindos, adiante
Em duas andas elevados
Três corações inflamados
Mas num só mastro rampante
Olhemos para lá das trevas
Firmes e hirtos, Companhia !
Outra candela alumia
As colunas em que te elevas
LISBOA, 9 de Dezembro de 2013
Carta de Raimundo - 1
Caro Manuel,
És um estúpido. É inadmissível o que fizeste e a situação em que te colocaste a ti e à Companhia Improvável. Conseguiste, em poucos dias, aniquilar um esforço de dez anos. DEZ. O teu carácter estroina e desleixado deitou por terra muitas esperanças e ambições.
Desculpa a dureza da introdução, mas é mesmo assim.
Conheces bem os nossos objectivos e acho muito bem que agora estejas a reconstruir o que sobrou, a apanhar os cacos de uma vida que estás a provar merece ser vivida. Espero que não te esqueças nunca daquilo que queremos e da mágoa que sentiste e sentes. Que sirva de exemplo para o futuro.
Tenta preservar o que tens : saúde que não é periclitante, a juventude de espírito, e o amor à Arte e à Literatura. Tu, eu e a Laura amamos o que é belo e de qualidade, estamos ansiosos para te ver a progredir na sensatez, que tu amadureças e que te guardes para o glorioso futuro que nos aguarda.
Não esmoreças. Tens à tua volta tantos exemplos de gente que não vacila na adversidade ! Lê, informa-te, reza, cumpre uma regra cristã simples e sólida, e verás que os teus esforços serão recompensados. Tens que ter uma paciência de santo, às vezes, mas é o preço a pagar. Tudo tem uma retribuição, e agarra-te a essa precisa esperança : a de que, se fizeste merda e estás a pagar, se por outro lado fores consistente na boa mudança então também poderás colher bons frutos do futuro próximo.
Coragem, nunca te esqueças do que és, do que já atingimos em conjunto, e dos doces dias que virão.
Abraço
R.
Lisboa, 9 de Dezembro de 2013
Ode à COMPANHIA IMPROVÁVEL
Numa manhã há muito distante
Num campo jovem e puro
Nasceu Laura, rampante ;
Ela com passo seguro
Ela era vela,
Ele era pau
Ambos caravela
E dois eram nau
Mas outro clamor profundo
De capa, e espada erguia
Assim surgia Raimundo
E seu esplendor se sentia.
A Vela, o Mastro e o Leme
Três mareantes em busca de Glória
Ninguém vacila, nenhum treme
Que a sua lenda passe à História
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Conferência Solitária IV - Futuros livros, 2
Outra ideia que eu tive - esta particularmente brilhante - está relacionada com um livro que tenho intitulado "Symbolen van de Inka, Maya en Azteken". Em neerlandês, de que percebo cerca de duas palavras, àcerca de línguas/civilizações que poucos académicos dominam.
Desconheço o totalmente* o que lá está escrito, o que me fascina sobremaneira. Sinto-me como uma criança que, numa aventura, subiu ao sótão do avô e descobriu um livro mágico àcerca das viagens passadas dele. O mistério do desconhecido, numa era de certezas científicas sobre tudo, submerge-me...
E assim, não fazendo a mínima ideia do que lá está escrito - *ou muito pouco - pensei e porque não criar o meu próprio texto ? Porque não criar de raiz uma História para os Incas, Maias e Aztecas ? Criar uma nova língua dá muito trabalho, e eu não sou Tolkien ; é melhor pegar em nomes que já existem, criar variações deles ; consultar histórias genéricas destas civilizações, nada muito elaborado, algo de cultura geral ; e desenvolver novas lendas para eles, que nunca existiram até agora.
Conferência Solitária III - Futuros livros, 1
Ultimamente, não sei se só pela recente excitação de ir ser um autor publicado, mas também pela quantidade de livros que tenho lido, e livros àcerca de livros, tenho andado num frenesi literário. Componho projectos para os quais dificilmente terei tempo ; por circunstâncias tão diversas como vida e obrigações familiares, reuniões sociais, e estudo para o exame de História da Universidade Aberta. Mas tenho que os registar, ou pelo menos as intenções de os escrever, o que faço em papel e depois transcrevo para este excelente meio que são as Conferências Solitárias.
Devia ter elaborado esta página mais cedo. É mais do que uma página onde registo coisas e loisas da vida, é tudo isso. É um commonplace book, versão online ; é um diário ; é a versão ordinária do que é um blog ; é um jornal de ideias ; e por último mas não em último é o espaço do Estado-Nação da´A COMPANHIA IMPROVÁVEL, onde Laura e Raimundo escrevem e desenvolvem as suas próprias ideias àcerca de tudo e mais alguma coisa.
Voltando à vaca fria, aos projectos literários, tive algumas ideias principais :
Embarcando numa expedição de descoberta nos Archivos Imperiais, escreverei :
- Crónicas dos Imperadores : onde recorrerei aos Anais do Império e descreverei, em formato vinheta cronológica bemdesenvolvida, os principais e mais marcantes acontecimentos dos seus pontificados ;
- Relatos das missões históricas deste/a ou daquele/a Cavaleiro ou Dama ;
- Revolta dos Grendel e subsequente guerra civil ;
...a partir das quais poderei desenvolver subtramas dentro de cada uma...
Estes três tópicos/temas pertencem a um mundo que de repente se me abriu diante dos olhos. Tendo-o descobert, lentamente faço viagens de exploração ao seu interior, fiorde acima, cidade adentro ; posso virar uma esquina da cidade e dar tanto com uma larga avenida como com um beco ; posso deparar-me com escadas que sobem ou que descem ; há portas abertas e fechadas ; há a estrada que conduz ao Palácio e o seu Archivo, com as suas centenas de corredores e câmaras...
Até me perco nas minhas ideias,e, como alguém disse, as melhores estórias são as que estão por contar...!
Subscrever:
Mensagens (Atom)