sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Poesia II : "Raiva"

Meu Deus, como te odeio!
A maneira fragmentada,
A malícia do Nada
Com que me mandas pr´o meio!
Choro, de fino recorte
Como...um aristocrata,
A quem vais roubar a prata
E abandonas-me à sorte,
Que não tenho. E pondero,
Porque será nas coisas pequenas
Em excertos de cenas
Que me tiras o que quero!
Maldita sorte, que despeito!
De minha alma torcida,
Assim me vais roubando a vida,
Nada poupas, vais a eito!
Esperneio, espumo, grito ;
Levanta-me o feitiço,
Devolve-me já o viço
Perdido, ainda pequenito!
A Fortuna foi perdida ;
Queres também a inocência ?
Não mostras complacência,
Sem olhar e sem medida!
Maldita, que desejas mais,
Que tanto de mim troças ?
Queres que ande p´las poças ?
Que se me rompam os estais,
Que ande por aí sem mapa,
Marinheiro sem um rumo,
Que perca também o aprumo,
Como um livro sem capa ?
Tu levas-me à loucura ;
Sim, eu desejo matar-te,
Com as minhas mãos, esganar-te
E dançar na tua sepultura!
Sim, e depois vou celebrar,
Ébrio de poder e glória,
A tua distante memória ;
Até demónios vou convidar!
E o  maior deles sou eu
Que vejo num reflexo
Sem cor, forma ou nexo
Entre o Inferno e o Céu.
JN/2013

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